Melancolia no lugar do Punk

 

Se até o momento o Legião Urbana vinha alternando discos que abordavam a ética pública com os que tratavam sobre a esfera privada, era de se esperar que viesse com uma forte carga Punk. Porém, após o introspectivo Quatro Estações, os músicos optaram por algo ainda mais melancólico. Renato chegaria a falar: "Bonfá me traz umas melodias dessas e eu que levo fama de ser deprê". Acabou sendo o disco que Marcelo e Renato mais gostaram. Era ao mesmo tempo conceitual, político e pessoal. Propositalmente lento, foi concebido para causar estranheza. O poeta pretendia escrever letras que não fossem perenes, fossem atemporais como versos de Pessoa ou Drummond. Metal Contra as Nuvens era uma das melhores letras de Renato. Tratava desde Fernando Collor (Quase acreditei em suas promessas) ao homossexualismo e Aids (É a verdade o que assombra / O descaso o que condena / A estupidez o que destrói). Foi o disco mais erudito também. Citações de escritores como o português Nuno Fernandes Torneol, do século XIII, e o alemão Johann Pachelbel, do século XVII, estavam lá. Tinha também a música O Mundo Anda Tão Complicado, tema de vários amores pelo Brasil afora, que se tornou a mais pedida em shows. Sem esquecer do Vento no Litoral (O plano era ficarmos bem).

Em agosto de 1992, o grupo voltou para a estrada. As letras permitiram que os shows ficassem ainda mais míticos. Mas o clima na banda não era dos melhores. Novamente, Renato entrava numa fase perigosa, alertaria Dado. A convivência foi se tornando exaustiva. Renato, já sabendo que era soro positivo, continuava usando drogas e bebendo. Junto com a hora do show, chegava a ressaca. Não raro, se assustava tanto com os efeitos do porre que achava que iria morrer. Renato, que desprezava os aplausos da mídia e dos fãs enquanto o astro se auto destruía (como James Joplin, Kurt Cobain e Jimmy Hendrix), flertava perigosamente com a morte. Certa manhã, chegou à piscina do hotel onde estavam hospedados no Rio Grande do Norte e perguntou por Dado e Bonfá. Fez um escândalo quando soube que ambos haviam saído para conhecer as praias com suas famílias. "Só eu que me interesso pelo trabalho? Então vamos embora". E foi encerrada a turnê. Na volta, Renato decidiu se cuidar. Pensava em si mesmo e na imagem que iria deixar para o filho Giuliano.

Passou a tomar AZT, para retardar o aparecimento dos sintomas da doença. Os efeitos colaterais descreveria como "um cachorro vivo que vai me comendo por dentro". Freqüentou as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Passou três meses internado em uma clínica para toxicômanos. Este tipo de tratamento demonstrava uma grande humildade, elogiaria Rafael. Os trabalhos musicais seguintes não tiveram uma boa recepção do público. Tanto Descobrimento do Brasil (1993), quanto The Stonewall Celebration Concert (1994), seu primeiro disco solo, ficaram no ostracismo.

A depressão voltava a assombrá-lo. Contudo, trabalhava como um louco. Os demais integrantes da banda já haviam percebido que o macete era mantê-lo ocupado, Renato também.

Na noite de 14 de janeiro de 1995, a Legião se apresentava em uma danceteria de Santos, quando uma lata de cerveja acertou o vocalista. Renato passou então 45 minutos cantando deitado no chão do palco. A platéia só o via quando levantava o braço para olhar o relógio de pulso e ver que horas eram. A temperatura esquentou. Quando aquilo acabou, todos estavam convictos de que nunca mais haveria um show do Legião Urbana.

Em meados de 1995, Renato, que tinha ido à Itália colher material para o seu novo disco solo, voltou a ficar depressivo e a se apoiar na bebida. Porém, começou a gravar o álbum. Havia dias em que ele apenas passava pelo estúdio, dava as coordenadas e ia embora. Contraditoriamente, o disco foi o mais tranqüilo já produzido até então. Todo em italiano, tinha um título que autobiografava o momento do cantor: Equilíbrio Distante. A Aids aos poucos avançava e Renato, que lia muito sobre o assunto, tinha plena consciência do que estava lhe acontecendo.

Em janeiro de 1996, a Legião Urbana voltava ao estúdio para registrar aquele que seria seu último disco, ou melhor, seus últimos discos. O material produzido era suficiente para dois CDs. Surgia assim A Tempestade e Outra Estação. Letras como A Via Láctea e Clarisse expunham de forma inédita a vida do autor. Havia dúvidas de até onde deveriam ir. Por isso, em respeito aos fãs, algumas músicas ficaram de fora. Renato, na verdade, não tinha condições de estar freqüentemente nas gravações, mas acompanhava o processo por telefone. Já estava muito magro e sem forças. Registrou quase tudo de primeira em gravações comoventes. Quando cantou "Hoje a tristeza não é passageira / Hoje fiquei com febre a tarde inteira", não usava metáforas.

Diante de tudo, apenas fica a dúvida, se podemos considerar Renato Russo um gótico obscuro dos anos 90 ou simplesmente uma alma melancólica, buscando alcançar o que, talvez, nunca soube ao certo. Mas isso, só ele poderia nos dizer...

 

Extraído de JB Online

Adaptado por Spectrum