A Tênue linha que separa dois mundos

 

 

Temos ouvido que, na Europa, o Doom está voltando para "seu devido lugar", que é estar restrito aos clubes de Heavy Metal, "de onde não deveria ter saído". Bom, não creio que seja bem assim. Óbvio que o Doom sempre foi e é um sub-estilo do Heavy Metal (assim como o são o Black, o Death, o Power, o Thrash, etc.). O que realmente aconteceu foi uma fusão natural, que mais cedo ou mais tarde ocorreria. Afinal, ambos os estilos (Doom e Gótico) têm similaridades, e a junção foi questão de tempo...

Retomando sua história, veremos que desde a década de 70 (ou seja, desde seu início), o Heavy Metal é esquisito. Ao mesmo tempo em que é um dos estilos musicais mais fechados e radicais, ele já se bandeava para outros estilos nada ortodoxos. Foi assim, por exemplo, com o country (caipiras norte-americanos) através de bandas como Black Oak Arkansas, Molly Hatchet, Blackfoot etc.; com as experimentações metálico-progressivas do Rush ou do Nektar; fora coisas não metálicas, mas primo-irmãs, como os primeiros discos do Queen, que faziam uma fantástica fusão hard-heavy-ópera-pop.

Se o metal pôde juntar-se ao Funk (como o Faith No More), ao Rap/Hip Hop (como o Body Count), aos eletrônicos (casos como do Rammstein) e tantos outros estilos nada familiares aos "meninos cabeludos", porque não o poderia com a melancolia gótica?

Resumindo ao extremo, diríamos que o Doom é filho direto do Heavy Metal, o Gótico filho direto do Punk, sendo o Gothic Metal uma fusão do Gótico com o Heavy Metal - não necessariamente com o Doom. É claro que não é tão simples (como parece) fazer uma definição precisa. Por exemplo, bandas como Trouble estão num cabo de guerra entre o Doom por excelência e o Heavy Metal tradicional. Bem como do lado Gótico, onde bandas como Southern Death Cult ou Theatre of Hate estão nesse mesmo ponto de passagem - quer dizer, são muito punks para serem góticas, mas muito góticas para serem chamadas de punk. Como definir bandas como Love Like Blood, que é simpática aos góticos, mas comparece, sem problemas, em coletâneas de Heavy Metal? E isso vale até para o visual: veja a indumentária totalmente Heavy Metal das bandas de Doom e o estilo S&M do Gótico, resgatado pela loja Sex (e que teve na ex-punk Siouxsie sua modelo maior). É bom lembrar que essa coisa Punk/S&M foi largamente utilizada pelos headbangers já nos anos 80, mesmo antes da fusão musical Gótico & Metal. Um dos ícones do fetichismo Couro & Tachinhas foi, sem dúvida, Rob Halford, em seus gloriosos dias de vocalista do Judas Priest, bem como Paul Di'Anno (idem com o Iron Maiden), e muitos outros. E a trilha sonora, em geral, também primava pelos temas obscuros (alguns explícitos, como o satanismo - mesmo que fake – de bandas como Venom, Bathory, Celtic Frost, etc.).

A escola obscura do metal, não há dúvidas, foi inaugurada pelo Black Sabbath. Dizer que eles eram Doom é simplório demais, além de falso - eles passam longe de serem catalogados em apenas uma vertente musical. Mais apropriado é dizer que ditaram as normas do Heavy Metal como um todo. Mas todos os elementos do estilo que seria conhecido anos mais tarde como Doom estavam ali contidos. Lançando seu primeiro disco numa sexta-feira 13, faziam questão de ressaltar o lado negro da vida. Começava pelo nome da banda, que era o título de um clássico filme de terror (dirigido por Mario Bava).

Suas letras embasavam a escolha dessa temática, indo desde descrições de assombrações e demonidades (como na própria Black Sabbath) até canções de protestos (como Electric Funeral e Children of the Grave). Quer dizer, mesmo quando denunciavam as mazelas desse mundo terreno, o faziam sob uma ótica sobrenatural. Daí muita gente achar que tudo o que eles falavam era macabro. No entanto, eles perguntam em After Forever: "Onde você pensa que vai depois de morrer? / Você por acaso gostaria de ver o Papa no fim de uma corda (enforcado)? / Acho que foram pessoas como você que crucificaram Cristo!". Não é de se estranhar que seus maiores seguidores, já nos anos 80, também utilizaram bastante esse expediente, chegando a serem citados como banda de White Metal: o Trouble.

O Trouble veio à cena junto com a New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). Ao lado do Witchfinder General, foram os mais destacados discípulos do chamado som setentista, sabbathiano. Tivemos ainda outras bandas nessa linha, mas a maioria era quase cópia dos bardos de Birmingham (como St. Vitus, Obssession etc.). Ou seja, a originalidade desse início de década de 80 não era o forte nessa corrente específica, pois, de resto, o Heavy Metal vivia seus melhores dias, como até hoje não se viu mais. Talvez tentando um confronto direto com o Punk, dizia-se que o Heavy Metal era um movimento (com gritos de guerra de "longa vida ao Metal", "Heavy Metal é um estilo de vida", e assim por diante). O estilo se inchou de tal forma que precisou ser dividido em vários segmentos. Um critério comum era priorizar uma característica específica da música e trabalhar em cima dela (velocidade, potência, distorção, vocais podres, temas macabros, etc). Assim surgiram o Thrash Metal (com Exodus, Testament, Megadeth etc.), o Speed Metal (como o Whiplash - tocar rápido é que importa! dizia Kirk Hammet, do Metallica), o Power Metal (Grave Digger, Running Wild, entre outros - de onde surgiu o Metal Melódico), o Black Metal (com Venom, Bathory, etc.), o Death Metal (nos precursores Hellhammer, Possessed, etc) - fora os hibridismos Black-Thrash (Slayer), Black-Death (Celtic Frost) etc.

E, entre eles, o Doom Metal, que se caracterizava pelos andamentos cadenciados ou lentos (às vezes quase parando), porém, pesados ao extremo, sem virtuosismos e firulas musicais de seus instrumentistas. Talvez o modelo maior seja a música Black Sabbath, dos próprios - daí seu pioneirismo. O andamento quase parando é uma das marcas do estilo. O Cathedral seria, anos mais tarde, mestre nesse ponto. As bandas de Doom Metal cantam a melancolia, a depressão, o oculto, fazendo coro em muitos desses quesitos com outros estilos, como o Black Metal e o Death Metal. Apesar de que quase todos os sub-estilos do Heavy Metal nessa época tocavam nesse ponto, desde Helloween até Slayer, passando até por Motley Crue (Shout At The Devil), Iron Maiden, Mercyful Fate, Sepultura etc. A diferença é de que, em estilos mais extremos (como o Black/Death), priorizava-se o lado mais místico, fantástico e sobrenatural do obscurantismo. Grande parte dessas bandas dizia-se satanistas, fazendo verdadeiros cultos a Lúcifer em seus discos. O som pesado, veloz, com riffs rápidos, vocais ríspidos (gritados, desesperados, ou urrados, tentando soar se o próprio demônio fosse vocalista das bandas) servia de pano de fundo a esses "rituais satânicos".

O Doom, por sua vez, quando utiliza esses elementos, o faz de acordo com o som, ou seja, uma coisa mais introspectiva, mais individual, mais lírica, mais serena - numa convergência direta aos temas utilizados pelos Góticos (resvalando por vezes na psicodelia sessentista).

É bom lembrar ainda que, mesmo tendo nascido na Inglaterra, esse novo sopro de vida no Metal (a NWOBHM - New Wave Of British Heavy Metal), de certa forma ajudou a democratizá-lo, pois apresentou ao mundo bandas de todos os lugares do planeta (quer dizer, fora do eixo EUA/Grã-Bretanha). Assim, ficamos conhecendo bandas da França (H-Bomb, Trust), Espanha (Baron Rojo), Argentina (V8), Dinamarca (Mercyful Fate), Japão (Loudness), Suécia (Heavy Load), Suíça (Celtic Frost), Brasil (Sepultura) etc. E, apesar de capitaneada por novos nomes no Heavy Metal (como Iron Maiden e Saxon), ainda revitalizou outros que já trabalhavam desde os anos 70, como Judas Priest (que, aliás, virou ícone e modelo maior, tanto do som quanto da indumentária fetichista sado-masoquista de seus integrantes), Scorpions, Motorhead etc., além de ninguém menos que - ironia das ironias - o Black Sabbath! A banda, agora com Dio nos vocais, tinha outra sonoridade, mais moderna, que em nada devia ao que predominava no mercado metálico mais jovem da época. Mesmo assim, ouve-se ecos do som do Sabbath com Dio em riffs e bases de guitarras de várias bandas atuais, desde Stratovarius até Danzig.

O Black Sabbath (foto ao lado), com efeito, após a saída de Ozzy Osbourne, nunca mais foi o mesmo. E nem o vocalista, em sua carreira solo, conseguiu repetir o feito do furacão dos anos 70. A química parecia ter sido quebrada com a separação dos membros originais. Com a entrada de Dio, o som mudou muito, e descarac-terizou a escola criada por eles mesmos na década anterior. Mesmo com o esforço de Dio para manter a temática (que, além de tudo, era mérito de Gezzer Butler, o baixista), nada seria como antes. Com sua substituição por Ian Gillan, o último suspiro de criatividade como banda veio com Born Again. Por outro lado, Ozzy trazia flashes dos dias memoráveis em apenas alguns trechos de músicas, como Diary of a Madman, Mother Earth, Waiting for Darkness, e pouca coisa mais. O estandarte fora definitivamente perdido para os já citados Trouble, Witchfinder General, St. Vitus, Obssession, etc., que eram mais Black Sabbath que o próprio. O problema é que eram uma corrente do metal 80 com um pé nos anos 70, que mais tentavam soar como os mestres do que procuravam criar um caminho próprio, uma identidade própria, mas sem perder o referencial. E vem da Suécia a solução para esse dilema: o Candlemass.

O Candlemass se apresentou ao mundo em 1986, através do clássico Epicus, Doomicus, Metalicus, e conseguiu o que parecia impossível: eles não se limitaram a imitar seus antecessores. De alguma maneira, têm-se a nítida impressão de que eles continuaram o trabalho do Black Sabbath do ponto em que estes pararam, em algum lugar entre o Sabotage e o Never Say Die. Traziam o progresso e a modernização natural dentro do estilo. Temos ali a temática obscura, aliado a técnicas novas do Metal extremo (como dois bumbos na bateria). O som e os riffs arrastados estavam lá, mas ao lado de vocais que não tentavam soar chorados e desesperados, como os de Ozzy - pelo contrário, os vocalistas do Candlemass pareciam vir mais da escola clássica do Deep Purple (ou algo meio Graham Bonnet, por exemplo). Nomes de músicas evocavam o velho Sabbath (como Solitude); o próprio termo Doomicus resgata o título de uma música dos ingleses (Hand of Doom, que, assim como Solitude, são do Paranoid, não por acaso, o álbum do Sabbath mais próximo de uma definição Doom). Lançaram álbuns fenomenais e definitivos dentro do Doom Metal, notadamente os que contavam com Messiah Marcolin nos vocais.

Da Suécia para a Suíça, correndo por fora desse universo Doom, vamos encontrar uma banda que também abriria caminhos:o Celtic Frost. Descendente direta do Hellhammer - que, ao lado do Possessed, podem ser consideradas as idealizadoras do Death Metal - o Celtic Frost estava um passo à frente de várias outras bandas de metal extremo. Com os álbum To Mega Therion, de 1985 (com capa de H. G. Giger) , e In to The Pandemonium, de 1987, eles inauguram a combinação Black + Death + Orquestra + Vocais femininos. Assim como Blood, Fire, Death, do Bathory, são trabalhos visionários, que, mesmo tendo sido recebidos com desconfiança pelos mais radicais da época, anteviram o que seria usado em profusão mais para frente, através de bandas como (principalmente) o Therion - banda que até o nome denuncia as influências.

Enquanto isso, no Gótico, algumas bandas já trabalhavam na possibilidade dessa junção de estilos. A começar por um dos ícones da estética musical e visual gótica: The Sisters of Mercy. Com Vision Thing a banda se distancia de sua característica original e adiciona elementos metálicos ao seu som. Não por acaso, algumas das influências musicais declaradas pela banda são bandas dos anos 70, notadamente Led Zeppelin. A famosa canção Stairway to Heaven esboçou até fazer parte do (vastíssimo) repertório de covers da banda. Vision Thing, no entanto, não agradou os fãs mais antigos, e nem angariou novos, pois era um híbrido sem objetivos claros. Muitos dizem até que se trata dum álbum solo de Eldricth, e que o verdadeiro espírito do Sisters estava nos dissidentes The Mission.

Temos outra banda singular ainda no Gothic Rock: The Fields of Nephilim. Trilhando um caminho mais ortodoxo, mais próxima das guitarras (partindo do pressuposto que o pós-punk, como o nome diz, é um estágio acima do punk e a mola mestra do Gótico) e, por conseqüência, de um som mais rock, eles também anteciparam uma aproximação com o Heavy Metal, na fusão que mais tarde seria conhecida como Gothic Metal. Carl McCoy possuía um timbre de vocal próximo aos guturais metálicos. As guitarras passeavam por bases e solos econômicos e melódicos, com timbres únicos (herança do The Sisters of Mercy), aproveitados anos mais tarde nas fases góticas de bandas como Paradise Lost, Theatre of Tragedy, Within Temptation, etc. As letras também versavam sobre temas ocultistas (dizem que a banda estudava e levava a sério - principalmente seu vocalista). Após a dissolução do Fields, em 1991, seus membros formariam bandas distintas.

O final dos anos 80, porém, ainda traria algumas surpresas. Uma delas atendia pelo nome de Lee Dorrian, membro fundador de uma das bandas criadoras do Grind/Crust/Core, o Napalm Death. Em seu princípio, no comecinho dos anos 80, apareceram até em coletâneas punk, tal a agressividade e extremismo de seu som. Uma vez fora do Napalm, Dorrian se transforma da água para o vinho (ou, no caso aqui, do vinho para a água), e funda o Cathedral, uma das bandas mais paradoxais dentro do Doom: consegue fazer um som moderno, agregando influências contemporâneas, mas lançando mão de um som totalmente retrô, anos 70, bem Black Sabbath - sem, no entanto, soar datado. Músicas pesadas, extremamente lentas, riffs e timbres totalmente sabbathianos, misturando tudo isso à uma psicodelia moderna, resgatada anos antes pelos góticos (via bandas como The Cult, por exemplo). Muitos consideram essa corrente (que se inicia com Sabbath, passa pelo Candlemass e desemboca no Cathedral) como True Doom, ou seja, o Verdadeiro Doom - sendo as demais correntes apenas variação dessa linha. Aliás, esse resgate dos anos 70 se aprofunda ainda mais, originando, anos mais tarde, o Stoner Metal, que hoje conta com bandas como o próprio Cathedral, além de Kyuss, Las Cruces, Nebula, Terra Firma etc.

Entrando nos anos 90, vamos encontrar um lançamento crucial: Lost Paradise, com a banda inglesa Paradise Lost (foto ao lado). Não do disco em si (contemporâneo à explosão, na Flórida, do Death Metal norte-americano), mas da banda, que ditaria regras de comportamento e ecletismo musical nos anos posteriores. Como tantas outras bandas de Death Metal da época, tinha sua marca registrada nos vocais/urros de Nick Holmes. Com o álbum seguinte, o diferencial se tornava mais claro: um som calcado nos andamentos lentos, mais riffs que solos - e esses econômicos - enfim, todas as caracte-rísticas de uma banda de Doom, mas com vocal ainda Death. Esse segundo álbum, sintomaticamente chamado de Gothic, fez surgir um sub-estilo dentro do Doom, chamado Doom-Death Metal. Era o caminho natural, pois ambos os estilos (Doom e Death) estavam em ebulição, com milhares de bandas fazendo a mesma coisa pelo mundo, mas com outras tantas procurando se diferenciar da maioria. Depois disso, por mais curioso que seja, cada estilo, em separado, se fortaleceu e cresceu mais ainda.

No mesmo ano de Gothic, o My Dying Bride lança seu primeiro EP, com o esquisito nome de Symphonaire Infernus Et Spera Empyrium. Esses dois lançamentos traziam alguns detalhes que marcariam o Doom e lhe dariam uma cara e identidade mais própria: Gothic trazia vocais femininos (soprano) como apoio ao vocal gutural de Nick Holmes. Esse recurso já havia sido utilizado por outras bandas de metal extremo (como os pioneiros Venom e Celtic Frost), mas sob outro contexto, e não com o destaque que a partir de agora ganhariam (não exatamente no Paradise Lost, porém). O My Dying Bride trazia um violino em sua formação. Aliás, o EP de estréia tem a introdução com esse violino, não com um som angelical e suave, mas mórbido, pesado, carregado de uma tristeza quase palpável. O Trouble também já havia utilizado um, mas não como instrumento fixo e nem como um dos elementos de sua música. Com esses recursos, o som caracteristicamente Death Metal (principalmente pelos vocais urrados, sem melodia, apenas destilando ódio, revolta ou tristeza) era enriquecido com elementos estranhos ao Heavy Metal mais extremo. E o melhor de tudo: sem soar deslocado, dentro do contexto proposto.

Do outro lado do Atlântico, acompanhando a ebulição britânica do Doom Metal, estréia no mercado a banda norte-americana Type O Negative, capitaneada pelo carismático Peter Steele, com o álbum Slow, Deep and Hard. O título resume bem o conteúdo. É um disco tipicamente Doom Metal, pioneiro nos EUA, com os elementos clássicos desse estilo (mas com alguns resquícios do Carnivore, banda anterior do líder Steele). Os vocais procuram um equilíbrio entre o gritado (meio Slayer, meio Rob Zombie) e o melódico (em tons graves, meio góticos, como seria a marca registrada da banda anos mais tarde). O instrumental conta com aqueles andamentos lentos (alguns lentos até demais, chegando à beira da caricatura), pesados, climáticos, linhas de guitarra apenas melódicas (solo mesmo só no minuto final da primeira música - e olha que ela tem 12 minutos!). Traz como curiosidade temas carregados de um certo sarcasmo, sexismo, humor e non-sense (que, aliás, não são características comuns no estilo), como nos títulos da músicas: uma das mais legais, por exemplo, chama-se Gravitacional Constant: G= 6.67 x 10 -8 cm-3 gm-1 sec-2.

Há ainda mais uma banda primordial para moldar o Doom Metal como o conhecemos hoje. Também ingleses, o pessoal do Anathema (foto ao lado) nos brinda com seu primeiro lançamento em 1992. Trata-se do EP Crestfallen. De comum com os outros, os vocais/urros guturais, as guitarras melódicas, praticamente sem solos, andamentos lentos, riffs cavernosos etc. Mas tinha uma agradável curiosidade: a sessão vocais femininos ganhou o destaque devido e se faz representar pela belíssima canção Everwake, com toques medievais em seu tom acústico, acompanhada apenas pelo violão. E a experiência bem sucedida do primeira EP se transfere para o primeiro álbum inteiro, o crucial Serenades. Dessa vez, a canção é J'ai Fait Une Promesse, e, da mesma forma do anterior, é uma belíssima interferência etéreo-acústica de vocal-feminino ao massacre sonoro proporcionado pela banda. O diferencial desses discos do Anathema também está nos vocais que, apesar de guturais, trazem uma certa melodia, talvez por serem alternados entre duas vozes (uma às vezes limpa).

Além de tudo isso, trazem uma música que pode ser considerada também precursora do Gothic Metal: Sleepless. Com uma levada de baixo & bateria típica do Gothic Rock, emoldurada por dedilhados leves de guitarra e um vocal limpo, apenas com um eco, causou furor nas hordas metálicas da época. Mas ela não é Doom (é só comparar com o resto do material da própria banda), não é Gótica e nem Heavy Metal - é um híbrido desses dois últimos, e é um bom exemplo de que Gothic Metal não tem de passar necessariamente pelo Doom.

No mesmo ano de lançamento de Serenades, do Anathema, outras importantes bandas estão lançando álbuns no estilo. Há que se destacar a estréia de Messiah Marcolin (ex-vocalista do Candlemass) no Memento Mori (com o disco Rhymes of Lunacy), banda que, de certa forma, evolui o trabalho de sua ex-banda - apesar do Candlemass não perder o pique, e manter o nível de seus lançamentos anteriores, com um novo vocalista que em nada deve aos anteriores.

Um disco à altura do trio de ferro britânico do Doom (Paradise Lost - My Dying Bride - Anathema) é, com certeza, Dance of December Souls, do Katatonia. Esse disco traz um apanhado perfeito de belas combinações do estilo, mostrando um trio afinado com o mesmo. A banda cria temas densos e tensos, com recursos esporádicos de um teclado aqui e ali, aliado a bases melódicas perfeitas para os vocais desesperados do baterista/vocalista. Isso sem contar com uma brincadeirinha no final do disco com a música tema de Love Story (que ficou, no mínimo, curiosa, sem soar ridícula). Os vocais fazem uma ponte perfeita entre o Black Metal e os guturais extremos em voga na época. Guturais, como, por exemplo, de outro grande lançamento daquele ano: Forever Scarlet Passion, do Celestial Season. Esses holandeses vêm reforçar a tendência criada pelo My Dying Bride, ou seja, doom + urros + violinos. Um grande disco para uma banda que mudaria completamente seu estilo em anos posteriores (aliás, tendência da maioria delas, ou seja, redirecionar o caminho musical, fugindo de suas raízes).

Data dessa época um lançamento que seria um marco nos estilos mais sombrios do underground: Bloody Kisses, do Type O Negative. A junção do Gótico com o Doom e com o Metal alcança interessantes formas. A própria banda já anunciava isso em seus lançamentos anteriores, escudada pela corrente natural que os estilos seguiam, até seu encontro final. O mais importante disso é que eles trouxeram pelo menos um hit para o underground obscuro. Trata-se de Black Number 1, que põe o gótico e seus primos dark-metálicos nas paradas de sucesso mundiais (inclusive aqui, no Brasil). Seguido ainda por Christian Woman, o Type O Negative se vale de estereótipos dos estilos em questão, tanto na música quanto no visual (alguns clipes chegam a ser hilários, dada a "forçada de barra"), o que traz um certo desconforto e polêmica para os apreciadores e fãs de longa data. Mas tem o mérito já mencionado de trazer as trevas de volta à mídia (tanto o lado mais metal, pelo Doom, quanto o lado mais sombrio, pelo Gótico). E, como sempre acontece quando algo dá certo, traz a reboque outros artistas, alheios aos estilos, mas que utilizam elementos desses para aproveitar a onda (como fez Marilyn Manson, por exemplo).

No ano seguinte viria um lançamento divisor de águas, tanto para a banda, quanto para o estilo: Wildhoney, do Tiamat. Antes (pra variar) uma banda de Black Metal, atendiam pelo nome de Treblinka, e o mentor Johan Edlund pela alcunha de Hellslaughter! O crescimento natural e maturidade musical da banda os direcionou para o Doom. Após alguns discos naquele primeiro estilo, brindam o mundo com essa obra-prima. Whatever That Hurts, por exemplo, tem um balanço perfeito entre o vocal gutural, mas não urrado ou gritado, e melódico, ao mesmo tempo, adicionado a partes sussurradas, que casam perfeitamente com os climas do álbum. Estes estão à cargo de teclados etéreos, efeitos eletrônicos, sons da natureza, backing vocals de um coral angelical e gótico, em músicas perfeitas com letras que trazem, inclusive, reflexões sobre a vida (terrena mesmo, como a evocação à Gaia, ou seja, nosso planeta). Os elementos psicodélicos nesse disco retomam influências latentes do Pink Floyd, em sua fase progressiva, características que seria no futuro muito utilizada tanto pelo próprio Tiamat quanto em outras bandas (The Gathering, principalmente). Tanto som, quanto letras, melodias, capa, etc., fazem com que esse disco seja um marco, não só para o Doom, mas também para o Gothic Metal, desenhado aqui com maestria.

O Doom Metal como era conhecido passa a agregar várias outras nuances, notadamente por ganhar a simpatia do estilo Gótico. A união os faz crescer e revitaliza a ambos. Parece um típico caso de unir forças para poderem ambos, posteriormente, seguirem seus caminhos novamente em separado, mas renovados. Como no The 3rd and The Mortal, que se destaca pelo híbrido entre os climas etéreos, cortesia dos vocais celestiais de Kari, e a base instrumental com um pé no Etéreo, Doom e Gothic Metal. Com isso não dá para dizer se a banda é uma coisa ou outra (Gótica ou Doom), ao mesmo tempo em que agrada a várias tribos. O destaque maior, aqui no caso, cabe ao fato de que o vocal principal de uma banda está a carga de uma vocalista, já que antes elas eram backing ou apenas ficavam com participações especiais. No caso do gótico, esse fato já era corriqueiro, pois algumas grandes bandas já estavam entregues à grandes vocalista (Siouxsie, XMal, Cocteau Twins, etc.). Mas no mundo metal isso era meio raro. E Kari acabou abrindo caminho para outras grandes solistas, dentre as quais, Anneke Van Giersbergen, do Gathering.

Após dois discos com outros vocalistas (sempre com um masculino principal escudado por um feminino), a entrada de Anneke vem estabilizar o grupo e revolucionar o som da banda, trazendo na cola inúmeras outras banda com vocalistas mulheres. Com o álbum Mandylion, ela estréia na banda e traz seu timbre único para o mundo do metal. O primeiro single, Strange Machines, tem como tema o livro e o filme A Máquina do Tempo (H. G. Wells). A música In Motion #1 foi inspirada na banda Slowdive. Quem ouve a música título do álbum, Mandylion, pensa se tratar de algum single perdido do Dead Can Dance, tamanha é a semelhança. Sand and Mercury é uma canção épica, que tem em seu final uma narrativa de J. R. R. Tolkien, mostrando a visão do escritor sobre a morte. Fusão perfeita do Doom Metal com o Gótico.

Ao mesmo tempo, outras mulheres ganham destaque nesse mercado. Casos como On Thorns I Lay, que debuta com o álbum Sounds of Beautiful Experiences, e a também importante estréia do Theatre of Tragedy (foto ao lado), com álbum homônimo. E entra em cena o (jocosamente) chamado Metal-Bela-e-a-Fera, fazendo com que o contra-ponto entre vozes masculinas e femininas seja um dos subgrupos do estilo que mais cresceram nos anos seguintes, chegando ao ponto de ser estereotipado como a própria definição do estilo Doom, conforme vimos aqui, não é totalmente verdadeiro. Talvez o motivo seja a agressividade do vocal masculino, aliado a guitarras distorcidas, que agrada as fãs de metal, mas com a oposição ao vocal quase sempre angelical de uma voz feminina, o que, aliado a teclados climáticos, acerta em cheio o gosto dos góticos. Ainda hoje, várias bandas nesse estilo aparecem no mercado, sendo o subgrupo mais produtivo dentro do Doom, e que ainda não perdeu forças, ao lado do Stoner. E, mesmo trilhando hoje outros caminhos, o Theatre of Tragedy ainda é conhecido por muitos como a banda que define o que é Doom (assim como Tristania, Traif of Tears, After Forever, Within Temptation, etc).

Outro ponto importante dessa época é o lançamento de Draconian Times, do Paradise Lost. Os anos de Death Metal ficaram definitivamente para trás, e o som da banda agora é praticamente Gótico. O disco em questão, abrindo com a ainda Doom Enchantment, traz várias canções curtas, moldadas no melhor estilo gótico-Sisters-Fields. Tanto que, na versão brasileira desse lançamento, uma das faixas bônus é um cover para Walk Away, do já citado Sisters of Mercy. Caminho inverso que vai fazendo outro pioneiro do gênero, o Cathedral. Cada vez mais se aproximando da (ou retornando à) década de 70, seu The Carnival Bizarre não faz esquecer da importância do velho Sabbath, além de indicar os caminhos para o Stoner Metal, que vai pautar uma nova tendência metálica no final dos anos 90.

Importante salientar também o refinamento das experiências de uma banda enriquecer seu som não só com violinos, mas com uma orquestra inteira. O mestre no estilo é, sem dúvida, o Therion. Nos primórdios também uma banda de Death Metal, vai inserindo aos poucos os elementos que outras bandas já haviam experimentado, como teclados e vocais femininos. À formação básica dos primeiros trabalhos, a cada disco mais e mais instrumentos de orquestra (sintetizados) vão sendo incorporados. Primeiro, uma vocalista feminina, depois duas vozes clássicas, mais tarde orquestras vocais & instrumentais (no começo, via sintetizadores), etc. Poucas bandas fariam tão bem feito essa união, que culminou com a gravação de uma orquestra de verdade no álbum Deggial. As apresentações ao vivo do grupo vão se rarefazendo, dada à grande produção necessária para reprodução nos shows do que é feita nos discos. A própria concepção de banda vai se desfazendo, e Christofer Johnsson vai deixando seu posto de vocalista, para se dedicar somente à guitarra e às composições, bem como ser o mentor do que acaba se tornando mais um projeto (grandioso) do que uma banda propriamente dita (dentro da concepção que todos nós temos de banda).

Grandes bandas de outros estilos agora migram sem problemas para o Doom e o Gothic em geral. Assim ocorre com o Amorphis e o Moonspell, por exemplo. O Amorphis lança álbuns cada vez mais lentos e depressivos (a partir do EP Black Winter Day), na escola Doom Death do início da década. O Moonspell, com Irreligious, também solta as amarras do Black Metal praticado pelo grupo em início de carreira e nos mostra composições maravilhosas que também beiram o Gothic Rock - ou Gothic Metal, como Opium, Ruin and Misery, etc. Essa é uma tendência dos grupos da gravadora Century Media (do qual o Moonspell faz parte), que traz novos ares ao Heavy Metal como um todo, e do Black/Death em especial. Até mesmo podreiras como Rotting Christ e Dark Tranquility, dentre outras, vão flertar com o Gothic. Vai de encontro com, por exemplo, Zoon, lançamento dessa época do Nefilin, que nada mais é que a banda de Carl McCoy, antigo vocalista do The Fields of The Nephilim. É um disco que resumia bem o que, provavelmente, o Fields estaria fazendo se não tivesse parado: um som que mistura Black, com Doom, com Thrash, com Gothic; ou seja, um híbrido perfeito para designar uma corrente metálica que poderia muito bem ser definida como Dark Metal. Estariam nesse ponto alguns trabalhos de bandas como Alastis, The Black League, Red Harvest etc., e até mesmo algumas coisas mais recentes de velhos medalhões, como a banda Black Metal grega Rotting Christ (fase A Dead Poem), Kreator (fase Endorama), e similares.

O Paradise Lost, como sempre na dianteira da movimentação no mundo da música, vem com One Second, um disco que assusta seus fãs mais antigos e ortodoxos. No entanto, o caminho que já vinha sendo delineado por eles não deixavam dúvidas sobre o direcionamento que adotariam. Algo como faz também o Theatre of Tragedy, que solta um disco na praça, que não seria nada mais que um EP, com as tradicionais sobras de estúdio, mas que se torna crucial em sua carreira. Trata-se de A Rose For The Dead, que contém faixas do Velvet Darkness They Fear, remixadas. Com um dedo do Das Ich, duo alemão de música eletrônica, o Theatre of Tragedy dá um giro em sua carreira e aponta o que farão no futuro. Antes, porém, uma cover do Joy Division (Decades), nesse mesmo EP, prepara o caminho para o próximo lançamento: o fenomenal Aégis. Contendo um apanhado de belíssimas músicas no melhor estilo Gothic Rock (mesmo com muitos dizendo que aquilo ainda é Doom), tornam-se de vez "queridinhos da turma das trevas". E esses, por sua vez, acolhem, também, a obra-prima do Therion, Vovin. Indo desde o Gótico até o Power Metal tradicional, passando pelo Doom menos ortodoxo, o disco agrada a gregos e troianos, ou seja, góticos e headbangers.

Grandes mudanças ainda viriam surpreender o mercado metálico em geral. O Tiamat se entrega de vez ao psicodélico e ao gótico, deixando pouca coisa de Doom em seus últimos lançamentos (A Deeper Kind Of Slumber e Skeleton Skeletron). O que não é um demérito, já que grandes músicas ainda estão lá; até uma cover dos Stones, no Skeletron, ficou melhor que a original, captando todo aquele clima sombrio que música original talvez queria passar. O Paradise Lost, com Host, faz duvidar se a banda é a mesma de dez anos atrás. O Moonspell, com The Butterfly Effect segue os passos de Tiamat, Paradise & cia. O Katatonia, com Tonight's Decision, também abraça essa nova tendência. O Gathering está cada vez mais na linha pink-floydiana, e suas viagens musicais já são rotuladas de Trip-Rock. O single de Amighty, traz, por exemplo, várias versões dessa música em ritmos eletrônicos, além de uma cover para uma música do Talk Talk, banda Synth-pop dos anos 80. Isso sem falar que eles já tinham feito uma cover de uma música do Dead Can Dance, anos antes.

Muitos outros estilos de metal também se juntaram ao Doom (ou adicionaram elementos desse) para aproveitar a onda e retomar seu caminho com força total. Assim é, por exemplo, com o Nightwish. A banda toca o mais puro Power Metal, da escola alemã clássica, mas, graças aos belos vocais da também belíssima Tarja, escapa de vez em quando para o Gothic (principalmente em alguns toques épicos e místicos de algumas canções). Um caso quase similar ao do Dreams of Sanity. Graças também à uma grande voz feminina, à cargo de Sandra Schleret, também passeiam entre o Gothic e o Power Metal sem problemas. Em seu álbum conceitual Masquerade, contam com a colaboração de Tilo Wolff na regravação do clássico The Phantom Of The Opera. Tilo Wolff é proprietário do selo da banda, o Hall of Sermon, e vocalista do Lacrimosa, banda tipicamente Gótica que também trabalha com elementos clássicos e metálicos com desenvoltura. Aliás, Wolff também participa da música Endorama, do álbum homônimo do Kreator, estreitando ainda mais seus laços com o Heavy Metal. E da Holanda também vem o bom Within Temptation (foto ao lado), que tem uma variação na linha The Beauty & The Beast: a voz principal é a feminina e a secundária é a masculina.

No Brasil, pouco se tem feito em matéria de Doom, especificamente. Uma das mais tradicionais, que já está há um bom tempo na estrada, é a Pentacrostic, que vai na linha tradicional Doom/Death. Outra, que já andou pelos mais extremos estilos de metal e agora flerta com o Doom (e algumas vezes até com o Gothic) é o Genocídio. Em seus dois últimos trabalhos eles contaram com vozes femininas abrilhantando as músicas. O último traz, em algumas músicas, os vocais de Bel, da banda paulistana de Gothic Rock, Twilight Gods. Flertes também com Doom em bandas como Obskure, Monasterium, Thuata de Danahan, Spina Bifida, Imago Mortis, etc. A se destacar também as excelentes Silent Cry, Pettalom e Dark Eden, na linha Theatre of Tragedy & Tristania, mas com trabalhos de qualidade, sem soarem como simples cópias da banda européia.

É bom salientar que os caminhos atuais trilhados pelas bandas mais tradicionais que flertaram com o Doom não as desmerece, pois, dentro do que se propuseram a fazer, estão fazendo bem feito. No entanto, não se pode dizer que estejam ainda fazendo Doom Metal. Isso porque, a começar pelo fim, de Metal já não se tem nada há muito tempo. Os objetivos hoje são outros, o público alvo talvez seja outro. Pode até ser o mesmo do começo, só que mais amadurecido, pois foram tantas as mudanças. E Doom... bem, perdeu-se a definição, não há dúvidas também. A garotada que está começando agora, ao procurar por Doom, achará pouca coisa, e com certeza deverá procurar em trabalhos passados.

Embora o ecletismo seja primordial para a sobrevivência de todo e qualquer estilo musical, perdeu-se com o passar dos anos a ponta da corda. Mas isso era inevitável. Tanto que foi necessário que houvesse o "chacoalhão" do Metal no Gótico (talvez via Doom) e vice-versa para que ambos os estilos estejam hoje rejuvenescidos. Vide a crescente produção musical de ambos os estilos na atualidade. Mas aí... já é outra história.

 

Por Jorge Vitzac