Balada do Cárcere de Reading

 

 

por C. 3. 3. - À memória de C.T.W.

Soldado que foi da Real Guarda Montada.

Morreu na Prisão de Sua Majestade, Reading, Berkshire

7 de julho de 1896.

 

 

Ele despira a túnica vermelha;

mas sangue púrpuro, encarnado,

sangue e vinho das mãos lhe gotejavam,

quando o viram, alucinado,

junto do leito dela, - o seu amor,

seu pobre amor apunhalado.

 

Ia andando entre os mais, e era cinzento

o traje velho que vestia.

Usava um gorro às listas, e o seu passo

ligeiro e alegre parecia.

Porém eu nunca vi homem que olhasse,

tão anelante, a luz do dia.

 

Jamais, jamais vi homem contemplar,

com tão profundo sentimento,

essa breve, essa estreita faixa azul

que os presos chamam firmamento:

e as nuvens brancas, velas cor de prata,

vogando no ar, flutuando ao vento!

 

Eu, com outras almas angustiadas, ia

andando em pátio separado,

a cismar qual o crime, grande ou leve,

por que o teriam condenado,

- quando alguém sussurrou atrás de mim:

"vão pendurar esse coitado!"

 

Jesus! as próprias grades da prisão

rodam, de súbito, em delírio!

Pesa o céu sobre mim, qual elmo de aço

que o Sol inflama, - ardente círio!

E a minha alma, de mágoas trespassada,

esquece, olvida o seu martírio.

 

Eu soube, então, a idéia lacerante

que o atormenta, e o faz correr,

e o faz olhar, tristonho, o céu radiante,

radiante, e alheio ao seu sofrer:

ele matou aquela que adorava,

- por causa disso vai morrer.

 

No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:

o seu amor, o seu ideal.

Alguns com uma palavra de lisonja,

outros com um frio olhar brutal.

O covarde assassina dando um beijo,

O bravo mata com um punhal.

 

Uns matam o Amor velhos; outros, jovens;

(quando o amor finda, ou o amor começa);

matam-no alguns com a mão do Ouro,

e alguns com a mão da Carne, - a mão possessa!

E os mais bondosos, esses apunhalam,

- que a morte, assim, vem mais depressa.

 

Uns vendem, outros compram; uns amam pouco,

noutros, o Amor dura de mais;

uns enterram-no aos ais, vertendo pranto,

outros sem prantos e sem ais:

todo o homem mata o Amor; porém, nem sempre,

nem sempre as sortes são iguais.

 

Nem sempre ele padece morte infame,

por um dia trágico e baço,

o capuz na cabeça, e na garganta

a corda fria, o horrendo laço;

nem fica a balançar, do alto de um poste,

- soltos os pés e as mãos no espaço.

 

Nem vai sentar-se entre homens silenciosos.

que estão imóveis, de vigia,

ou procure rezar; ou chore, triste,

em amaríssima agonia:

a sua vida é presa da prisão,

- ah, não a roube ele algum dia!

 

Nem vê, ao despertar, sombras estranhas

cruzando a sua úmida cela:

o Capelão, de branco e vacilante,

mais o Xerife, atroz, que o vela;

e o Diretor, de luto, como a Sorte,

- a face pálida, amarela.

 

Nem tem de erguer-se arrebatadamente,

vestir as roupas da prisão,

enquanto algum doutor, boçal, lhe espia

a mais ligeira contorção,

- com o tique-taque hostil do seu relógio

a martelar-lhe o coração:

 

Nem vai sentir, fogosa, na garganta,

uma secura imitigável,

antes que o Algoz, Soturno, abrindo a porta,

- hirto, enluvado, inexorável, -

o ate com três correias, pra que nunca

sofra mais sede, o insaciável!

 

Nem tem de ouvir, curvado, o Ofício Fúnebre,

Ofício Fúnebre de morto;

nem, pensando que ainda não morreu,

contemplará, transido, absorto,

o seu próprio caixão, entrando, lento,

no seu antro de Desconforto.

 

Nem, por teto de vidro, enxergará,

do dia, a luz tênue e fugaz;

nem a Deus rogará, com lábios secos,

breve agonia, - o Sono, a Paz;

nem sentirá, na sua face trêmula,

o beijo torpe de Caifaz.

 

II

 

Seis semanas inteiras ele andou

com a veste usada que trazia.

Tinha um gorro de listas, e o seu passo

ligeiro e alegre parecia;

porém eu nunca vi homem que olhasse,

tão anelante, a luz do dia.

 

Jamais, jamais vi homem contemplar,

com tão profundo sentimento,

essa breve, essa estreita faixa azul

que os presos chamam firmamento;

e as nuvens esgarçadas no horizonte,

- flocos de espuma errando ao vento!

 

Não retorcia as mãos, - tal como alguns

de idéia curta, e alma louçã,

que ousam crer, mesmo em negro Desespero,

numa Quimera estulta e vã:

ele fitava, calmo, a luz da aurora

sorvendo o ar puro da manhã.

 

Não retorcia as mãos e não chorava,

nem lamentava o seu inferno;

ia, apenas, bebendo o ar como um bálsamo,

bálsamo bom, bálsamo eterno...

Abria os lábios e bebia o Sol

como uma taça de falerno.

 

E eu, e todos os mais, - nós que penávamos

num outro pátio separado,

esquecemos de pronto as nossas faltas,

a nossa Sorte, o nosso Fado,

para seguir, com olhar de assombro, esse homem

que ia, entre nós, ser enforcado!

 

E era estranho que o víssemos andando,

- tão leve e alegre parecia...

E era estranho que o víssemos fitando,

tão anelante, a luz do dia.

E era estranho lembrar que ele, a sua dívida,

de tal maneira a pagaria.

 

Tem lindas folhas o álamo e o carvalho,

que em maio brotam viridentes:

mas é medonha a forca, - arvore negra,

raiz mordida de serpentes:

e verde ou seca, morre o condenado

sem lhe avistar frutos pendentes.

 

É para o céu, para o azulado empíreo,

que o anseio humano se alevanta!

Mas quem, do alto da forca, atado a um laço,

com a corda presa na garganta,

ergue seu turvo olhar ao firmamento

quando o carrasco se adianta?

 

Dançar, ao som de um violino, enleva,

se a Vida é bela e é belo o Amor;

dançar, ao som de flautas e alaúdes,

é raro, fino, embalador...

Mas é horrível, no ar, com os pés ligeiros,

dançar, num último estertor!

 

Curiosamente, mudos, consternados,

o vigiávamos dia a dia,

pensando que talvez nosso destino

igual ao dele acabaria:

pois ninguém sabe pra que rubro inferno

sua alma, cega, se transvia.

 

Por fim, deixei de vê-lo entre os mais presos,

sempre sozinho, vagamundo...

Soube então que o levaram; que jazia

em negro cárcere profundo,

e que eu, jamais, de novo o enxergaria,

neste belo, divino mundo...

 

Dois navios perdidos que se cruzam

em ruim paragem tormentosa,

- nós nos cruzamos, mudos, sem um gesto,

numa atitude silenciosa:

pois de dia nos vimos (não de noite)

e a luz é casta, é vergonhosa.

 

Muros de uma prisão nos circundavam,

éramos réus por nossos danos.

Deus e o seu mundo, inexoravelmente,

nos repeliram desumanos;

e a sinistra armadilha do Pecado

nos seduziu com seus enganos.

 

III

 

É um forte, o pátio dos Endividados:

muralhas frias, pedra dura.

Lá passeava ele no ar, sob o céu plúmbeo,

entre dois guardas da clausura,

temerosos que o preso lhes morresse

de qualquer morte prematura.

 

Ou sentava-se entre esses que à sua dor

sempre ficavam de vigia,

quer de joelhos, rezasse, quer se erguesse

para chorar sua agonia;

- não fosse ele roubar-lhes uma vida

que só à força pertencia.

 

O Diretor timbrava em executar

a letra do Regulamento;

para o Doutor, a morte era, em ciência,

um banal acontecimento;

- duas vezes por dia o Capelão

deixava um opúsculo ao detento...

 

Duas vezes por dia ele fumava

o cachimbo, e bebia um trago.

Sentia a alma valente, e sem lugar

para o pavor, o medo aziago:

e dizia esperar, ânimo alegre,

do Carrasco o sinistro afago.

 

Mas nenhum guarda nunca perguntou

a razão desse estranho gosto...

Os Guardas da Cadeia! Quem por sorte,

quem por sorte ocupe esse posto,

deve trazer nos lábios um cadeado

e andar de máscara no rosto.

 

Pois de outra forma se comoveria,

tentaria uma frase amena...

Mas no "Antro de Homicidas", que diria

da Caridade a voz serena?

Que palavra de alívio ela traria

a uma alma irmã, nessa geena?

 

Cadenciados, marchando em volta ao pátio,

nós somos loucos em parada!

Que importa? Bem sabemos que Satã

é o general desta Brigada.

Lenta, arrastando os pés, cabelo curto,

lá vem a alegre mascarada!

 

Desfiamos cordas alcatroadas, rijas,

- unhas gastas, dedos sangrentos;

esfregamos o chão, limpamos portas,

e metais claros, espelhentos;

e enxaguamos, aos turnos, o assoalhado,

batendo baldes barulhentos.

 

Cosemos sacos e quebramos pedras,

furamos tábuas com uma pua.

Tinem marmitas; cantos se misturam;

gira o moinho, e a gente sua...

Mas dentro da nossa alma, um terror mudo,

um terror grande se insinua.

 

Por isso os dias correm lentos, como

vagas, rolando com sargaços!

E nós nos esquecemos do Destino,

que os homens vis prende em seus laços,

- quando, ao vir do trabalho, um dia, vemos

uma cova, ante os nossos passos.

 

Boca amarela e rude, ela bradava

por uma vitima; e, feroz,

a terra hostil pedia sangue ao pátio,

- pedia sangue, em alta voz!

Ah! logo vimos que ao romper da aurora

iria à forca um dentre nós.

 

Recolhemo-nos todos, a alma atenta

à Morte, à Sorte, e ao Medo infando.

O Algoz passou com o seu pequeno saco,

na treva os passos arrastando:

e cada qual, na tumba numerada,

se enfiou, trêmulo e cismando.

 

Nos longos corredores, essa noite,

a Sombra e o Medo erraram juntos;

pelo Antro Férreo, passos se sentiam,

sem som, furtivos, desconjuntos...

E por fora das grades, espiavam

faces macabras de defuntos.

 

E ele dormia calmo, como quem

dorme em abril, numa clareira.

Os que, de noite, o sono lhe vigiavam,

não sabiam de que maneira

podia alguém dormir, tão sossegado,

tendo o Carrasco à cabeceira.

 

Não há, porém, repouso, quando choram

os que nunca verteram pranto!

Assim, nós, criminosos, nós velamos,

(noite sem fim, de Horror e Espanto!)

e a angústia alheia, - a Dor No-la estendeu

por sobre as almas, como um manto.

 

Ai! do Pecado de outrem, como é dura,

como é terrível a expiação!

Ai! com o gládio do Mal, envenenado,

varando o nosso coração,

- que lágrimas de fogo não choramos

pelo crime daquele irmão!

 

Com sapatos de feltro, às nossas portas

passavam, mudos, os rondantes;

e viam, surpreendidos, pelas frestas,

formas humanas, vacilantes:

e estranhavam por que é que erguiam preces,

esses que nunca oraram dantes!

 

Loucos, velando um morto, nós rezamos,

ajoelhados, fitando o céu.

A escuridão da noite, parecia

de uma eça negra o negro véu.

E era esponja embebida em vinho amargo,

o Remorso de cada réu.

 

Cantaram galos, rubros e cinzentos,

sem que rompesse o dia após...

Tortuosas formas tétricas, nas celas,

nos transiam de horror atroz:

e os espíritos maus da noite-morta,

riam, pulando em frente a nós.

 

E rápidos giravam, deslizavam,

como viandantes na neblina.

Imitavam a Lua, contorcendo-se

em pose grácil, feminina:

e, passos nobres, elegância odiosa,

chegavam outros, em surdina.

 

Alegres, trejeitando, e de mãos dadas,

entram, de súbito, em ciranda!

Rodopiam fantasmas em delírio,

numa grotesca sarabanda;

e, caricatos, fazem arabescos,

como o vento na areia branda!

 

Com piruetas gentis de marionetes,

leves, levíssimos bailavam!

Era estridente a música do Medo

com que o seu baile acompanhavam:

e, para despertar na cova os mortos,

alto, bem alto, eles cantavam:

 

"Oh! - diziam - o mundo é largo. A viagem

para os trôpegos, enfadonha!

Jogar os dados uma ou duas vezes,

é de bom-tom, gente bisonha!

Mas, ai! perde quem joga com o Pecado,

na oculta Casa da Vergonha."

 

Não eram sombras vás, esses fantoches,

volteando em doida alacridade!

Para nós, - vidas presas na Prisão,

pés tolhidos, sem liberdade,

eram, - Senhor do Céu! - entes bem vivos

e de execranda fealdade!

 

Sempre ao redor, valsavam contorcendo-se:

alguns, giravam com seus pares;

outros subiam, ágeis, as escadas,

em atitudes singulares...

E outros arremedavam nossas preces,

rindo, a zombar, fazendo esgares.

 

Gemia o vento da manhã, lá fora,

mas a noite, sem arrebol,

em seu tear gigante inda tecia,

da treva, o fúnebre lençol!

E nós, a orar, sofríamos, temendo

a Justiça clara do Sol.

 

Gemia o vento em volta das muralhas

do úmido cárcere infernal;

e o Tempo, enfim, moveu-se, - como roda

de aço, a girar no vendaval.

Ó vento soluçante! que fizemos,

para te ter por senescal?

 

Por fim, a sombra amarga da janela,

ferros cruzados em xadrez, -

ante o meu catre, na parede branca,

foi surgindo, com timidez...

Vi que a aurora de Deus, rubra de sangue,

rompera, algures, outra vez.

 

Varremos, às seis horas, nossos quartos;

e às sete, como em pesadelo,

um bater de asas, forte, encheu os ares,

passou, num trágico arrepelo.

Era o Senhor da Morte que chegava,

com frio hálito de gelo.

 

E não chegou, pomposo, em corcel branco,

manto de rei, de arminho e penas.

Bastam à forca uns metros, só, de esparto,

e uma tábua, das mais pequenas...

Para o trabalho oculto, o Arauto veio

com a corda da Desonra apenas.

 

Éramos como quem, num brejo escuro,

a tatear, trêmulo avança.

Nem já tínhamos ânimo de orar,

nem de entrever paz e bonança!

Morrera dentro em nós alguma coisa:

morrera, em nós, nossa Esperança.

 

A Justiça dos Homens, firmemente,

segue na sua arremetida:

implacável, severa, vai levando,

o forte e o fraco de vencida:

- com calcanhar de ferro esmaga o forte,

a monstruosa parricida!

 

O toque das oito horas aguardamos,

cheios de sede, - ardor aflito!

pois o toque das oito é o do Destino

com que nasceu o homem maldito;

e o Destino usa sempre a mesma corda,

para o justo e para o précito.

 

Só tínhamos, sentados, que esperar

por esse toque ameaçador...

Pedras soltas, num vale abandonado,

era sem fim nosso torpor:

mas, agitado, o coração batia,

como um demente num tambor!

 

Súbito, na Prisão, bate o relógio,

e o som, pelo ar, vibra espantoso!

E um gemido de dor, de desespero,

ecoa, lúgubre, estrondoso,

- qual o grito que lança, num pau,

a boca negra de um leproso!

 

Como quem, no cristal claro de um sonho,

vê uma tragédia apavorante,

assim vimos a corda gordurosa

balançar, no poste infamante;

e ouvimos a oração, que o nó do Algoz

cortou, num grito lancinante.

 

Eu compreendi, melhor do que ninguém,

aquele grito amargo e forte,

e o seu remorso, e o seu suor de sangue,

e a angústia, o horror da sua sorte!

- Pois o que vive mais do que uma vida,

deve morrer mais que uma morte.

 

IV

 

Não há ofício, no dia em que na forca

um preso cumpre a sua sina:

ou sente, o Capelão, pálida a face,

ou grande dor d'alma o domina;

ou, coisas que ninguém deve saber,

inda lhe bailam na retina.

 

Meio dia era já, quando vibrou

do sino o toque funerário!

A cada qual, espiando, os guardas abrem

a cela, - e em passo tumultuário,

vamos descendo a férrea escada, livres

do nosso inferno sedentário.

 

Fomos andando ao ar suave de Deus,

mas, como dantes, ninguém ia;

- pois, faces brancas uns, outros cinzentas,

o medo nelas transluzia!

E eu nunca vi ninguém olhar assim,

ansiosamente, a luz do dia.

 

Eu nunca vi ninguém olhar assim,

com tão profundo sentimento,

essa breve, essa estreita faixa azul

que os presos chamam firmamento.

E as nuvens, sem cuidado, ao longe, no ar,

felizes, livres como o vento!

 

Mas, entre nós, havia uns que marchavam

cabisbaixos, alma aflitiva,

sabendo bem que a forca mereciam,

pois sua falta era excessiva:

mataram uma coisa morta, e o outro,

- apenas uma coisa viva.

 

O que peca segunda vez acorda,

para a Dor, uma alma dormente:

tira-a do seu sudário maculado,

e a faz sangrar sangue vivente;

e a faz sangrar, num jorro largo e forte,

e a faz sangrar inutilmente.

 

Quais monos e truões, vestes listadas,

bizarramente, uma por uma,

seguimos, silenciosos, dando a volta

ao pátio escuro, envolto em bruma;

seguimos, silenciosos, dando a volta,

e ninguém disse coisa alguma.

 

Seguimos, silenciosos, dando a volta,

e à nossa mente, oca, vazia,

a memória fatal de coisas fúnebres,

um vento fúnebre a trazia:

e o Horror nos enfrentava a cada passo,

e o Terror bárbaro, o seguia.

 

Passam guardas de um lado para o outro,

vigiando, espiando a horda de brutos,

Seus uniformes novos, de domingo,

brilham, asseados, impolutos:

mas a cal dos sapatos denuncia

o que fizeram há minutos.

 

Pois onde a cova tinha sido aberta,

não se notava a menor falha:

só uma faixa de terra e areia fofa,

junto da horrenda muralha;

e um punhado de cal, da que serviu

ao pobre morto, de mortalha.

 

Ai! mortalha de cal, abrasadora,

bem pouca gente é que a reclama!

Sob um pátio de cárcere (e despido,

para mais triste e negra fama!)

ele dorme, com os pés acorrentados,

envolto num lençol de chama.

 

E por tempo sem conta a cal roerá

a carne e os ossos desse irmão:

de noite os ossos duros, e de dia,

a carne mole, em consumpção:

comerá turno a turno a carne e os ossos,

mas, sem cessar, o coração!

 

Três longos anos, nada irão plantar

nesse local de desventura!

Maldito ficará três longos anos,

maninho estéril de secura!

E olhará, com assombro, o céu distante,

amargamente e sem censura.

 

Pensam que o coração de quem matou,

tisna a semente dadivosa.

Não! A Terra de Deus é acolhedora,

e, mais que o homem, generosa:

mais rubra floriria a rosa rubra

e mais de neve a nívea rosa!

 

Brotar-lhe-ia uma rosa cor de sangue

da boca! E, branca, outra do peito!

Quem sabe? Tem Jesus estranhas vias,

e é estranho, às vezes, seu conceito:

- fez, outrora, ante um Papa, abrir-se em flores

seco bordão de um Seu eleito.

 

Mas nem rosas vermelhas, nem de neve,

podem florir nestes terrenos.

Só nos dão cacos, sílex e pedras;

só nos dão mágoas e venenos...

A flor abranda o Desespero aos simples,

- e é crime, aqui, sofrer de menos.

 

Ah! jamais rosas brancas ou vermelhas

pétala a pétala cairão sobre essa lama em que ele dorme, unido

ao muro hediondo da Prisão,

- pra lembrar que Jesus morreu por todos,

a nós, e aos outros que virão!

 

Contudo, embora a tétrica muralha

o envolva, o cinja em férreo abraço,

e um espírito de pés acorrentados

não possa, à noite, errar no espaço,

mas só chorar, chorar, nessa ímpia terra,

morto de mágoa e de cansaço,

 

Ele dorme em sossego, - o malfeliz!

ou dormirá, dentro de pouco!

Não mais, vendo o Terror em pleno dia,

sofre, e receia ficar louco.

Não mais! a Negra Pátria em que repousa,

não tem, nem sol, nem luar tampouco!

 

Enforcaram-no, assim como a uma fera!

Nenhum sino dobrou na igreja,

que ao seu transido espírito trouxesse

uma paz doce, benfazeja:

mas depressa o esconderam numa cova,

onde a parede mais negreja.

 

Despiram-no. Em seguida o abandonaram,

e com sarcástico sorriso,

fitaram-lhe a garganta, inflada e púrpura,

o olhar imóvel, indeciso...

E envolveram-no, após, numa mortalha,

brutos, torcendo-se de riso.

 

Jamais o Capelão se ajoelharia

na sua campa, que traduz

a Desonra, e jamais nela poria

a triste bênção de uma Cruz,

- visto ele haver pecado, e ser dos míseros

por quem veio morrer Jesus.

 

Enfim, tudo acabou. Do Reino Escuro

ele transpôs o limiar.

A urna da Piedade, urna partida,

há de, por ele, transbordar!

Por ele chorarão todos os réprobos,

esses que sempre hão de chorar.

 

V

 

Não sei se as Leis são justas ou se injustas.

Os pobres presos miseráveis

só sabem que as muralhas da prisão

são altas, fortes, invioláveis;

e que um dia é mais longo do que um ano,

- ano de dias infindáveis.

 

Mas sei que as Leis, que o Homem, para o homem

fez, com seu ânimo iracundo,

desde o primeiro que matou o irmão,

e deu início à Dor do mundo,

são peneiras que guardam joio vil

e atiram fora o grão fecundo.

 

E sei também (assim todos soubessem!)

que as paredes de uma Prisão

são feitas com tijolos de ignomínia

e têm grades negras, que são

para Cristo não ver como o Homem trata

barbaramente o seu irmão.

 

Grades que a lua amável desfiguram,

e o sol, de raios triunfais!

É melhor, sim! que escondam esse inferno:

pois lá se passam coisas tais,

que nem Filho de Deus nem filho de Homem

as deveria olhar jamais.

 

Como planta daninha, o ato mais vil

floresce bem, no ar da cadeia.

Só o que é bom no homem lá se perde,

só o que é mau lá se granjeia.

Há dentro um guarda: o Desespero; e à porta,

a Angústia fica de alcatéia.

 

Matam de fome as tímidas crianças,

até que chorem noite e dia;

azorragam os fracos e os dementes,

maltratam velhos à porfia.

Uns enlouquecem; todos se pervertem,

- mas ninguém diz sua agonia.

 

Cada célula estreita é uma latrina

escura, fétida, nojenta!

Um hálito mortal, fecalizante,

enche a lucarna pardacenta.

Tudo morre; a Luxúria, apenas, vive

e a Humana Máquina atormenta.

 

A água suja e salobra que bebemos,

lodo e imundície traz consigo.

O pão amargo e escasso, que nos dão,

tem cal e gesso mais que trigo.

E o Sono, sem dormir, pede, em desvairo,

que o Tempo abrande o seu castigo.

 

Embora em nós a Fome e a Sede lutem,

como serpentes em refrega,

ninguém cuida em sustento. O que nos mata

é, quando desce a noite cega,

sentir cada um, no coração, as pedras

que o dia inteiro ele carrega.

 

Com meia-noite dentro d'alma, e a cela

num crepúsculo funerário,

damos à manivela e esfiamos cordas

em nosso inferno sedentário.

E o silêncio apavora, mais que o bronze

a redobrar num campanário.

 

Nunca uma voz amiga vem falar-nos,

meiga, num gesto humano e puro:

o olhar que nos vigia, no postigo,

é impiedoso, áspero e duro:

apodrecemos, - alma e corpo em ruínas,

esquecidos neste monturo.

 

Arrastando os grilhões férreos da Vida,

vamos, sozinhos, degradados:

um se maldiz; o outro chora; - e seguem

em silêncio, os mais desgraçados;

mas a Divina Lei suaviza e parte

os corações dos condenados.

 

E cada um que se parte, na Prisão,

é como aquela ânfora cheia

que outrora se partiu, e o seu tesouro

deu a Jesus da Galiléia,

espargindo na casa do Leproso

o olor do nardo da Judéia.

 

Feliz esse que parte o coração

e ganha a Paz, e ganha o Amor!

Quem, de outra forma, pode libertar-se

do Pecado escravizador?

E onde, a não ser num coração partido,

entra Jesus, Nosso Senhor?

 

Ah! o morto de garganta inflada e púrpura,

e olhar imóvel, indeciso,

aguarda as santas mãos, que o Bom Ladrão

exaltaram ao Paraíso:

Deus não despreza os corações contritos,

e é estranho, às vezes, seu juízo.

 

O homem da lei, vestido de vermelho.

deu-lhe, de vida, três semanas,

para a sua alma conciliar consigo,

e sem idéias ruins, tiranas,

purificar do sangue derramado,

as mãos, um dia desumanas.

 

E ele purificou, chorando sangue,

as rudes mãos de instintos crus:

pois só o sangue lava o próprio sangue

e só o pranto ao Bem reconduz:

e a nódoa rubra de Caim transforma

na branca auréola de Jesus!

 

VI

 

No cárcere de Reading, junto a um muro,

terra de opróbrio os ossos come

de um desgraçado, envolto num sudário

que o afogueia e que o consome!

É uma campa infamante essa em que jaz,

uma campa que não tem nome!

 

E aí, até Jesus chamar os mortos,

tranqüilamente há de jazer.

Inútil verter lágrimas inúteis,

e dar suspiros, e gemer.

- Ele matou aquilo que adorava,

teve, por isso, de morrer.

 

No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:

o seu amor, o seu ideal.

Alguns com uma palavra de lisonja,

outros com um frio olhar brutal.

o covarde assassina dando um beijo,

o bravo mata com um punhal

 

 

Oscar Wilde