Livro guia para a cultura dark mostra como ela atravessou
os tempos e firmou-se entre as mais fortes influência do mundo moderno.

 

 

O que Batman, o escritor Edgar Allan Poe, o roqueiro Jim Morrisson e o cineasta Tim Burton têm em comum? Todos eles são legítimos representantes de uma visão de mundo que enxerga a realidade através de um vidro obscurecido e vivem seus sentimentos de forma melancólica. Em outras palavras: eles são góticos.

De uma maneira até mais original do que aquele estereótipo do jovem que usa roupas pretas de couro, adornos em forma de crucifixo e se isola dos outros freqüentando cemitérios ou lugares abandonados. Se você ainda não está convencido de que pode ser também um "pouquinho" gótico, dê uma folheada no caprichado livro Goth Chic - Um Guia Para a Cultura Dark, escrito pelo jornalista inglês Gavin Baddeley. Dividido em capítulos que mostram as influências do gótico na construção da cultura moderna, o autor ilustra seu guia com imagens bem conhecidas do grande público - como os personagens Drácula, Wolverine, Buffy - A Caça-Vampiros, ou os integrantes da Família Addams. Mas não deixa de mostrar de onde surgiu a inspiração de seus criadores ou como esses ícones famosos na TV e no cinema moderno têm raízes que remontam aos contos da Idade Média.

 

 

O que é gótico?

 

Pode-se dizer que a visão gótica do mundo sobreviveu a mudanças históricas e se manteve viva graças ao seu caráter originalmente underground. A cultura dark sempre se manteve viva graças ao número de valiosos artistas que se identificam e contribuem com ela. O inglês Gavin Baddeley cita nomes importantes no decorrer dos dez capítulos de Goth Chic e explicita o que tem em comum gente como o autor Lord Byron, a escritora Susan Sontag ou o cineasta Oscar Wilde (com seu O Retrato de Dorian Gray).

Logo na introdução, ele explica como pessoas de épocas e comportamentos tão distintos, podem estar unidas por uma mesma linha característica de pensamento. "O gótico é uma barbárie sofisticada. É a paixão pela vida coberta pelo simbolismo da morte. É um amor cínico pelo sentimento. É uma combinação de extremos como sexo e morte. É utilizar a escuridão para iluminar", diz.

O livro aborda as principais características e os nomes mais importantes do gótico. Defende também que esse modo tão particular de ver o mundo está praticamente no DNA humano. O indivíduo é quem escolhe (insconscientemente) se vai - ou não - ficar imerso em seu lado melancólico. Aqueles que produziram dentro desse universo estão distribuídos em capítulos que falam de música, cinema, literatura, HQs, moda e até mesmo comportamento. Sexo e violência são elementos fundamentais na construção da imagem gótica.

Além de ser um excelente guia para entender o gótico muito além do conceito do senso comum, Goth Chic - Um Guia Para a Cultura Dark traz farto material fotográfico. Isso torna a obra ainda mais interessante de ser folheada. Depois de Goth Chic, você irá assumir seu lado mais obscuro. O livro Goth Chic pontua o universo gótico e mostra como ele é importante na cultura pop atual.

 

 

Trevas no cinema, nos quadrinhos e na TV

 

Tim Burton é um dos cineastas que mais ajudam a entender o conceito de gótico. Qualquer um de seus filmes - de Edward Mãos de Tesoura (1990) à animação Noiva-Cadáver (2005) -, traz a morte como personagem fundamental da trama. E não é à toa que o ator Johnny Depp é o preferido para os longas de Burton: quando se pensa em astro hollywoodiano, Depp tem o mesmo talento para o dark que Bella Lugosi tinha para os filmes de terror do começo do século.

O cinema e a TV contribuíram - e muito - para difundir essa cultura. Seja por meio de produções de terror, seja através de séries de humor negro, o gótico se aproveitou dos meios de massa mais potentes para fincar suas características na modernidade e influenciar gerações. Quem lê as aventuras de anti-heróis como Spawn, Constantine ou Batman pode não saber que seus criadores se classificam entre legítimos representantes da cultura gótica. Mas os elementos principais estão lá: histórias mórbidas, ambientes sombrios, heróis egoístas e vilões cuja maldade é quase psicótica.

A vingança autodestrutiva é um poderoso tema gótico. Pode ser vista nos quadrinhos de Batman, Sin City, Motoqueiro Fantasma, ou em personagens como O Corvo, Lobisomem e Drácula. Entre os escritores, Stephen King, Edgar Allan Poe, Marquês de Sade e, claro, Anne Rice, são exemplos da literatura gótica.

As mulheres na cultura gótica ultrapassam os limites da sensualidade e perigo típicos da femme fatale noir. São literalmente agressivas, violentas. Causam arrepios de medo e de desejo ao mesmo tempo. Um exemplo é a Mulher-Gato, idealizada nas HQs (e que não tem nada a ver com aquela interpretada por Halle Berry em filme homônimo). Michelle Pfeiffer consegue transportar essa belicosidade feminina para as telas como a Mulher-Gato de Batman - O Retorno (1992). Outra atriz que se encaixava nessa definição gótica da mulher foi a polonesa Ingrid Pitt, que se tornou a mais famosa heroína de filmes de terror na década de 70, sendo o mais popular deles o thriller A Condessa Drácula. Em Goth Chic, o autor Gavin Baddeley trata Ingrid como "a gata gótica sedenta por sangue".

A cor negra não é a única característica que marca a influência gótica na moda que vemos nas ruas por conta do inverno. O preto ocupa grande destaque, mas o gótico também é marcado pela presença de batas leves com decotes profundos e tecido transparente. Elas são inspiradas nas camisolas que as vampiras usavam para seduzir suas vítimas nas histórias de terror. Casacos e camisas de estilo vitoriano também têm um "quê" de dark. Faz parte do anti-herói ser elegante, mesmo que trilhe caminhos obscuros da existência.

 

Por Luciana Borges

Extraído e adaptado http://revistaepoca.globo.com